Luís Pequeno


Outra metade
4 04UTC novembro 04UTC 2009, 11:59
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“Um dia vou encontrar alguém que eu possa ter por inteiro”, sorriu.

Esfreguei as pontas dos dedos na neve que cobria o copo. Tomado por uma sensação de fraqueza fiz a única coisa que me restava fazer – levei a cerveja até a boca. Só então enfrentei aqueles olhos inquisidores que pareciam me perguntar: você está aí?

Olhei para as minhas mãos e elas eram feitas de lama, deixavam impressões onde quer que eu tocasse, o que quer que eu tomasse como meu. Discretamente limpei as lágrimas que invadiam o meu rosto. É o fim de uma relação amorosa, não o fim do mundo, tentei me tranqüilizar.

***

Quando estou confuso, sem rumo, costumo pedir conselhos as pessoas que estão ao meu redor, mas tomei um susto quando ouvi de três amigos próximos que a minha “especialidade” era sofrer. Sofria quando estava sozinho porque só tinha um par de meias, sofria quando estava livre e descalço, sofria quando tinha um novo par de sapatos. Nunca tinha pensado que, talvez, este fosse um comportamento padrão – eu até sei ser feliz, simpático, contente, leve, mas existe um vazio intransponível que me distancia de pessoas que eu amo ou nutro uma simpatia natural.

Uma amiga me disse: “o que você não percebe é que não está preparado para se envolver com ninguém, para construir algo sólido”. E desatou a falar sobre o quanto eu precisava me restabelecer, me achar, me estruturar, me graduar na faculdade e, principalmente, ser um pouco menos egoísta.

***

Queria ter dito “um dia eu vou me encontrar por inteiro” e acender mais um cigarro. Mas baixei a cabeça e disse a única coisa de que tinha certeza: eu não sei…



Lugar de arte é na rua
22 22UTC setembro 22UTC 2009, 21:35
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O ano é 2003, os EUA acabavam de invadir o Iraque. Saindo do trabalho o senhor de cabelos quase grisalhos resolve parar na Praia do Porto da Barra em Salvador, tomar uma água de coco e assistir ao pôr-do-sol. De repente, uma revoada de balões vermelhos lhe toma a atenção. Um cai ao seu lado e lhe traz uma pergunta numa pequena etiqueta: “E se fosse uma bomba?”

Choque maior tomou uma senhora que encontrou por acaso um jovem estudante universitário dormindo sobre uma cama confortável, enrolado em seu lençol, no meio de uma praça. Aos policiais afirmou, com toda certeza, “isso aí é briga com os pais, rebeldia”. “Isso” era mais uma proposta de Interferência Ambiental, que, muito longe de ser uma ação de grupos terroristas ou de rebeldes sem causa, tem um conceito, sabe muito bem onde atua e o que quer atingir: a paisagem urbana e o automatismo cotidiano em que vivem os seus moradores.

Em Salvador, a maior referência nesse novo tipo de prática artística é o GIA – Grupo de Interferência Ambiental, que usa (e abusa) das mais diversas maneiras de intervir no dia-a-dia das pessoas que transitam pelas zonas de maior circulação da cidade. Para capturar a atenção do trabalhador apressado, o grupo se apodera da linguagem urbana, das diversas mídias e da publicidade, para então subverte-la à sua maneira. O GIA vende absolutamente nada em panfletos em branco, cola plaquetas de banheiro por toda a cidade durante o carnaval, cria uma grande fila na porta do Elevador Lacerda. “Extravagância, maluquice, coisa de artista?” Ao menos atinge a proposta. Fazer você parar, respirar e chegar a uma reflexão.

“O grupo surgiu em 2002, com a vontade de ir pra rua, de experimentar o não – convencional. Na formação inicial éramos eu, Everton Marco, Mark Dayves e Cristiano Piton. Depois entraram e saíram outras pessoas, até chegarmos à formação atual, com Pedro Marighella e Ludmila Britto”, explica o designer Thiago Ribeiro. Além dos laços de amizade, o grupo tem em comum o fato de todos os seus integrantes estudarem ou já terem estudado na Escola de Belas Artes da UFBA. “A gente sentia falta de uma comunicação entre o que fazíamos na faculdade, e o que nós queríamos mostrar com nossos trabalhos. Em Salvador há muitos espaços restritos, e nós sentíamos a necessidade de expandir isso”, acrescenta Everton, que é sócio de Thiago e Pedro em um estúdio de design.

O GIA Utiliza o elemento surpresa sempre, Transformando lugares como a conturbada Avenida Sete numa moldura, e vai abrindo caminho para que a arte contemporânea deixe as galerias e museus e vá dialogar com as pessoas nas ruas, praças e muros. “Apesar de existir o questionamento institucional, não somos contra os museus (o coletivo recentemente apresentou seu portfólio no Solar do Ferrão, em exposição que comemorava o aniversário de Salvador). Achamos importante desmistificar essa idéia de que arte só na galeria. Arte pode e deve estar na rua, onde as pessoas circulam e vivem”, opina Ludmila Britto.

Apesar da falta de apego a nomes e épocas, os integrantes do GIA esclarecem que tem influências importantes, mas que não às vê como fronteiras em seus trabalhos. Elas vão desde o Movimento Neoconcreto a nomes como Helio Oiticica, Artur Barrio, Paulo Bruscky, todos que fizeram experimentações de arte nos anos 50, 60 e 70. “Não temos muita afecção por nada muito tradicional. Eu, pessoalmente, não sou seguidor ou consumidor de nada, entendo o processo artístico como um todo, como um caminho que foi feito pra que chegássemos até a arte de hoje. Até porque a arte em si está sempre se remodelando, se modificando, sempre em busca de diversas linguagens”, afirma Thiago Ribeiro.

Em uma cidade onde o índice de desemprego é altíssimo e os “bicos” são a única fonte de renda possível, o GIA não poderia ser mais soteropolitano. “Muitas das nossas ações são bancadas por nós mesmos, até porque nós não seguimos um calendário, quando pinta a vontade de fazer algo, a gente se ajeita e divide os custos. O que acontece quando rola uma grana é quando convidam a gente pra fazer um trabalho, oferecem um valor e a gente faz os trabalhos encima desse valor que nos é dado, mas também sempre acabam aparecendo parcerias e gente que quer ajudar”, afirma Thiago, que deixa claro que isso faz parte da alma do coletivo e não dá alma do negócio, “A base do nosso trabalho é a precariedade. Até pelos recursos que dispomos, e pela nossa intenção mesmo de trabalhar com materiais baratos. Tudo nas ações é feito com muita simplicidade e precariedade”.

Distante do apregoado “vanguardismo” que acometem alguns artistas contemporâneos, o GIA quer mesmo é ganhar as ruas. “Não queremos rótulos de nada, e tudo que rotulam atualmente como ‘algo de artista’, a gente procura fugir. Mas não podemos renegar nossa base, nossa estrutura. O fato de termos estudado arte nos legitimou, seria até egoísmo de nossa parte não procurar também dialogar com os artistas. Porém, nossa proposta de comunicação com as ruas é muito forte em nós e por isso é que queremos propor a fusão dessas duas vertentes”, explica Thiago.

o GIA conta com uma rede grande de parceiros em todo o Brasil, como os coletivos Poros (BH), Laranjas (região Sul), Entreatos (Vitória), Esqueleto Coletivo (São Paulo), além dos também soteropolitanos, Turbilhão Urbano e COLAtivo, que se apresentaram juntamente com o GIA no Solar do Ferrão, em abril. Na busca de fomentar a arte, organiza eventos como o Salão de Maio, onde artistas de todo o Brasil são convidados a interferir na paisagem de Salvador. o GIA acabou influenciando pessoas de outros estados a formarem seus próprios núcleos de interferência ambiental. “O grupo EIA de São Paulo, por exemplo, surgiu a partir do Salão, e hoje eles fazem um trabalho muito legal. Eles, inclusive, nos deram apoio quando fizemos o trabalho da “Cama” lá em São Paulo. Criamos links importantes, e vamos continuar fazendo isso”, afirma Thiago.

Os artistas do GIA também produzem pequenos panfletos que convidam os espectadores a fazerem eles mesmos suas próprias interferências. Coisas simples, como carimbar uma mensagem positiva em sacos de pipoca ou manter sua cidade limpa, fazendo origami com panfletos publicitários. Tudo é válido para arrancar um sorriso, uma careta, um grito de espanto. Para chamar a atenção de quem não tem tempo para mendigos dormindo em praça pública, guerras no oriente médio e uma pausa para a arte.

Matéria publicada na Revista Lupa da Faculdade de Comunicação da UFBA. Editada por @niltimlopes e escrita por @luigipiccolo e Carolina Garcia.



Transtorno de Ansiedade
17 17UTC setembro 17UTC 2009, 18:00
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Eu preciso dormir. Chego a última sala do corredor e estou acompanhado de duas ou três garotas que circundam a professora com papéis nas mãos fazendo perguntas que não escuto ao certo. Todo aquele alvoroço era completamente desinteressante. Bebo um gole de água e ela chama meu nome, Luigi Piccolo, eu respondo que estou, mas os olhos inchados e a cabeça encostada na parede denunciam a minha falta de compromisso. Eu preciso ir para casa, eu preciso dormir. É a segunda vez que pego esta matéria, Elaboração de Projeto, e será a segunda vez que a repetirei. Eu não tenho um projeto de conclusão de curso, eu não tenho um projeto de vida, eu nem sei o que será de mim depois que ela se levantar e der por acabada a aula. Na verdade eu sei, irei subir a série de degraus que leva a Escola Politécnica, pegar um ônibus e esperar a hora do almoço – então farei um teste comigo mesmo para saber quanto tempo eu suporto ficar acordado, mesmo sabendo que não chego as 15h.

Arroz, feijão, alguns legumes. Almoço na varanda olhando para a piscina sem público. Pássaros sobrevoam a água e enchem o bico, depois fogem para a copa de alguma árvore. Eles repetem o ritual, fazendo círculos no ar. É algo insignificante, mas extremamente bonito. Vou descer para a piscina. Coloco a roupa de banho e deito em uma esteira. Tudo o que escuto é o barulho da obra ao lado, um novo arranha-céu, misturado ao canto daquelas aves que vêm matar, logo atrás de mim, a sua sede. Não há nuvens no céu e o sol tórrido queima a carne e tudo o que há ao meu entorno; mesmo assim teimo em brincar de fechar e abrir os olhos. Quando os abro sou surpreendido por raios brancos, quando os fecho vejo um pequeno globo se formar sob as minhas pupilas. É como tirar uma fotografia.

Estou suando muito, descido então me refrescar. Primeiro tomo uma ducha e depois caio na piscina. Olho para a distância que separa a minha borda da outra, menos de dez metros, mesmo assim me parece tão longe. Algo como atravessar o Canal da Mancha. Eu precisava de um grande plano para vencer o sono e o tédio. Contei dez voltas nas bordas da piscina. Me senti como se estivesse me preparando fisicamente para um grande desafio, ou pior, em reabilitação. Quando cheguei a casa, às 13h30, não me senti revigorado, como costumava me sentir ao entrar no mar ou tomar um bom banho. Carregava um grande peso sobre as costas, como um molusco – eu só queria alívio.

São 14h. A doméstica está limpando as janelas, tirando a poeira e a gordura que os dedos deixam ao arrastá-las. Eu preciso fazer alguma coisa. Olho para as minhas mãos e elas estão tremendo. Pergunto para ela se posso varrer a casa e ela ri, diz que sim, e começa a me ensinar o ângulo certo em que a vassoura deve estar em relação ao chão caso contrário tudo o que irei conseguir fazer é empurrar a sujeira para longe de mim. Bocejo. Depois de limpar a sala, a cozinha, o gabinete, meu quarto, pergunto a ela se posso também passar a cera. Envolvo o pano em outra vassoura e começo a esfregar o líquido azul sobre o piso de madeira. Desisto e ponho a cabeça sobre o travesseiro, tapando os ouvidos por causa do barulho ensurdecedor que as máquinas e os pedreiros da obra ao lado produzem. Com os olhos pesados, sinto algo acariciar as minhas costas, como um sopro de vento. Eu preciso dormir. Sei que é uma luta inútil, ninguém sabe ao certo quando dorme somente quando acorda, mesmo assim repetia mentalmente a sentença como se repete um mantra.

Acordo às 3h da manhã e me enrolo nos lençois para ver se consigo perpetuar aquele momento por mais duas ou três horas. Abro os olhos e vejo o ventilador de teto girar, girar, girar. Lembro que às 19h minha avó havia deitado no canto da cama e eu a despachei dizendo estar muito cansado. Agora, no meio da madrugada, não havia com quem conversar, não havia o que fazer exceto pôr uma xícara de café e fumar alguns cigarros. Esperar o dia clarear, ir para a faculdade, responder a chamada, almoçar, lutar contra o sono incontrolável e dormir por doze horas seguidas, até a próxima madrugada. Tic tac tic tac. Os pássaros estavam dormindo, a obra parada, meu único companheiro – azar o meu – era o relógio da cozinha.

Mãe, eu não consigo dormir. Ela não morava comigo. Era, como poderia dizer um otimista recém convertido ao pessimismo, a minha última esperança.



Quando eu crescer
13 13UTC setembro 13UTC 2009, 10:25
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Sexta (11) eu e alguns amigos fomos ao Museu de Arte Moderna (MAM) assistir ao show da Pedra Branca. O mal tempo, porém, fez com que “o melhor projeto de Chill Out do país e feito por brasileiros” fosse cancelado. Comecei a circular então pelo Solar e a conversar com alguns poucos corajosos que, como nós, estavam ali mesmo debaixo de chuva. O fato é que não consegui entrar em uma “sintonia boa” e acabei me afastando de alguns amigos. Decidi que precisava voltar para casa e dar fim aquela noitada morna. Sozinho, resolvo tirar o celular do bolso para fazer uma ligação e, de repente, sou assaltado. A cena foi muito rápida: um deles me agarrou pela cintura e puxou o celular da minha mão, quando virei o rosto para entender o que estava acontecendo levei um soco na cara. Só olhei para trás para me certificar que eles não iriam voltar e rumei para casa, ainda meio tonto.

Mais cedo havia levado outra “pancada”. Numa conversa casual sobre o meu Trabalho de Conclusão de Curso (o famoso TCC) com o meu orientador ele me diz “antes de qualquer coisa você precisa saber o que você quer fazer depois de se formar”. Acho que foi a pergunta mais difícil que enfrentei em seis anos de universidade, dois de direito e quatro de jornalismo. Quando criança eu dizia que queria ser cientista maluco e desenhava as minhas invenções nos papéis que roubava da impressora. Depois pensei em ser arquiteto, publicitário e procurador da república, para só então perceber na carreira jornalística uma possibilidade única: a de dar vazão a minha compulsão por escrever.

O problema é que depois de um ano e meio de confusão mental me encontrava em uma encruzilhada. Largara a redação do maior jornal da Bahia para me dedicar à tarefa de não pensar em absolutamente nada, não fazer planos. Nesse meio tempo caçaram o diploma de jornalista e eu encontrei um bom emprego em uma ONG. Descobri que gostava de trabalhar com adolescentes, escrever para crianças e acreditar que “outro mundo é possível”, mas ainda não tinha uma boa resposta para a clássica pergunta: o que você vai ser quando crescer?

Uma vez sonhei que tinha uma doença terminal e que, ao deitar no colo da minha mãe, chorava dizendo que “não queria morrer”. Conversando mais tarde sobre isso chegamos à conclusão de que eu precisava deixar “a minha criança interior partir” e não pular etapas importantes, evoluir a pequenos passos. Sempre cresci aos tropeços, descobrindo dia após dia o que eu “não queria ser” e deixando aquela pergunta feita pelo meu orientador sem resposta.

É que sempre que tento respondê-la me vem o grilo falante dizer: “é, meu pequeno, agora é a hora de você parar de tentar conquistar o mundo e comprar um quarto e sala”.



Louis, Louis
11 11UTC setembro 11UTC 2009, 14:47
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Ano passado descobri essa música enquanto rodava pelo fotolog. O dono do flog era um mineiro melancólico na faixa dos trinta anos, colecionador de gatos e paixões mal-sucedidas. Não entendo muito de linguagem corporal, mas aparecer em fotos sempre com a cabeça baixa, em uma casa vazia, rodeado de bichos, me parece um atestado de falência. A vida poderia ser mais doce. Eu que sou avesso a melancolia – ainda mais ensaiada – não tive paciência para seguir aquele monólogo. Mas o vídeo que ele postou, baixa produção um tanto melosa, me tocou. Não tanto pela letra ou pela melodia, mas pelo título: Louis Louis.

“Por favor, toque para nós uma canção. Toque-a como se fosse única. Então ela viajará entre os vales, em rosas e frutos”. Passara um ano e meio construindo um castelo de cartas, sobrepondo um a um os signos que alimentavam aquilo que escolhi chamar de confusão – para fugir da pecha da loucura. E, sem saber tocar um instrumento, mas munido de um catálogo sem fim de canções e de uma boa memória sai à procura de uma explicação. Se minha barriga doía, se meu corpo tremia, se meu cérebro partia, sei que havia uma música e eu a tocava “sem melancolia”.

Onde você está meu amigo? Alguém me perguntava e a vontade era de responder “está doendo”, “eu vou morrer”, “estou confuso”, mas com um olhar perdido e um sorriso resignado apenas dizia: estou aqui, estou cantando…



Cara Nova
10 10UTC setembro 10UTC 2009, 22:08
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Luís Pequeno em dois mil e quatro

Luís Pequeno em dois mil e quatro

No longínquo ano de dois mil e quatro resolvi criar um blog. Até então a ferramenta passara desapercebida pelos meus olhos. Eu que tinha toda sorte de softwares no computador nunca tinha pensado em usar a internet para além da masturbação, do noticiário e do bate-papo diário com alguns amigos. O nome surgiu num estalo: marcado no vermelho estava o título Ventos Alísios.

Queria com aquele nome passar a idéia de tempestades que ocorrem sempre a certa hora do dia. Nunca poderia adivinhar que ali estava começando uma aventura sem volta – rumo ao interior de um garoto metido a gente grande. “Pensei que você fosse mais velho”, me disse certa vez um amigo que fiz atráves do blog. Ele não foi o único. A internet me permitiu conhecer pessoas de todo o país: jornalistas de Salvador, funcionários públicos do Distrito Federal, editores de revista de São Paulo, donas de casa do Sul do país, ou seja, um mar de gente.

Fazia minha mãe chorar, minha irmã arrancar os cabelos, meus amigos me acharem interessante, com apenas cinco parágrafos. Assumo que o que eu mais gostava de ouvir era “não foi você que escreveu isso”. E realmente era esse o processo, perfeccionista que sou, me desinteressava por completo pelo que havia escrito. Não só pelo que havia escrito como pelo projeto de vida que havia rascunhado. Um emprego seguro em algum cargo público depois de estudar Direito em uma universidade gratuita. Só pensava em uma coisa: o que poderia me dar dinheiro e me permitir escrever ao mesmo tempo. Cercado de jornalistas por todos os lados a escolha não foi difícil.

O Ventos Alísios ía de vento em polpa (com o perdão do trocadilho) até eu ser chamado de “vaidoso” por aquele que seria uma das pessoas mais importantes da minha vida. Achei que se eu raspasse o cabelo meus problemas iriam ficar no chão da barbearia. Tinha gosto para o drama, para ficções, mas era a realidade que vinha acertar contas comigo. Enganado pela pouca idade perdi alguns quilos e a razão até decidir parar de escrever, para sempre.

Por onde andei desde então? Distante das letras, dos amigos, da família, do mundo, me entreguei a um outro ofício de que gosto muito: sonhar acordado. Permite-me por um momento “não ser” até o dia em que olhei profundamente nos olhos da minha mãe e a ouvi dizer “você precisa voltar”. E eu voltei. Com uma corrente de São Jorge no pescoço (recentemente roubada) e a idéia de criar um novo blog.

O Pequeno já teve vários nomes desde dezembro de 2008 e também várias finalidades: já foi um caderno de exercícios, um divã, uma declaração de amor e também uma forma de trabalhar o tédio. Um dia um amigo, depois de ler um texto meu, falou que eu “daria um excelente escritor para crianças”. Fiquei a pensar se ele estava me achando simplório ou se eu dominava o fantástico como um desses célebres autores infantis. Lembrei da frase que cunhei no início do ano para celebrar a volta do que não foi – um pé depois o outro – e desencanei.

Era só de uma página em branco que precisava

Luís Pequeno em dois mil e nove

Luís Pequeno em dois mil e nove